segunda-feira, 7 de março de 2011

Detetives do Passado: Os Três Reis Magos

       “Os personagens mais misteriosos da Bíblia”. É assim que o estadounidense Bob Brier, egiptólogo e especialista em paleopatologia, refere-se aos magos logo na abertura de Os Três Reis Magos, episódio da série Detetives do Passado1.     
Guiando a audiência dentre os caminhos desta rica e milenar temática, Brier busca por evidências que nos ajudem a compreender melhor alguns dos “erros” e crenças mais comuns até hoje alimentadas sobre os Reis Magos.
Valendo-se de sua marca registrada na busca por algo - que é a animação, um modo de falar ás vezes bem peculiar (“Herodes não era um campista feliz”) e ritmo acelerado2, Brier visita muitos lugares, dos mais comuns – como uma loja de cartões nas vizinhanças do Bronx, em Nova Iorque – aos mais ricos e não tão conhecidos – como Persépolis, a capital do antigo império Persa, ou a Catedral de Colônia, Alemanha, onde repousam as supostas relíquias dos Três Reis.

O mosaico de meados do século VI em Ravenna, Itália, na Igreja de Santo Apolinário, o Novo, é um indício da origem oriental dos magos: o chapéu pontudo e calças que as três personagens representadas trajam na composição, fornecem ricos e úteis detalhes.
E quando foi que Jesus nasceu exatamente? 17 de abril do ano 6 a.C. É esta a data que Brier obtém com o auxílio dos estudos do astrônomo Michael Molnar, da Rutgers University, sobre a Estrela de Belém. A tripla conjunção entre Saturno, Júpiter e Venus, ocorrida na constelação de Áries, uma moeda do século I e programas de computadores auxiliam na exposição desta teoria – que tem sido uma das mais bem aceitas entre os astrônomos contemporâneos.
Se os crânios que repousam no relicário de ouro e pedras preciosas no interior da Catedral de Colônia foram mesmo encontrados pela imperatriz Santa Helena no séc. IV, e se de fato pertencem aos três viajantes orientais que teriam visitado Jesus, estas, são questões que permanecem em aberto.
Muito instrutivo e agradável aos olhos (estejam atentos às várias belas obras de arte que povoam as cenas do vídeo). Assim defino este documentário que, como eu bem já disse lá no meu primeiro post, marcou o “lugar de origem” do meu interesse, e também dos meus estudos, sobre Os Três Reis Magos.


Ficha Técnica:
Título da Série: Detetives do Passado - Os Três Reis Magos (Mummy Detectives - The Three Kings)
Produção e distribuição:  The Learning Channel (TLC-UK)
Data de Lançamento: 23 de dezembro de 2004
Exibição: Discovery Channel/ Discovery Civilization
Produção e Direção: Peter Spry-Leverton
Roteiro: Bob Brier
Duração: 45 minutos

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Notas e Referências Bibliográficas:

1. SPRY-LEVERTON, Peter. Detetives do Passado – Os Três Reis Magos. (45 minutos) The Learning Channel, UK: 2004. Disponível em: http://www.4shared.com/rar/59HWPOpd/detetives_do_passado-os_trs_re.html.
2. ROSE, Mark. The Three Kings & the Star. Archaeology. Dez./2004. Disponível em: http://www.archaeology.org/online/reviews/threekings/ .

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Dia de Santos Reis: origens históricas e práticas contemporâneas

Na tarde de 11 de dezembro de 2010 posso afirmar que de fato compreendi o sentido da Epifania. Uma chuva fraca iniciara-se. O cachorro de meu irmão latia lá fora, perto do portão de entrada, anunciando que algo se aproximava da casa. Um “tamborilar” estranho, incomum, podia ser ouvido de dentro de casa, da cozinha, onde eu estava. Vinha da rua. Uma figura infantil, trajada com uma fantasia multicores, aproximou-se do portão e dirigiu-se a mim indagando “aqui tem Folia de Reis...?”. Eu, da janela, surpreso – por nunca ter presenciado esta cena, mas por ter percebido do que se tratava – respondi “que não...!”, pois como bem sei (ou achava que sabia) as casas a serem visitadas pelos grupos de Folia de Reis são previamente definidas. Eu nunca vira uma Folia de Reis de perto, e muito menos no meu distrito. Então, um senhor mais velho, trazendo uma viola pendurada na frente e segurando um “estandarte dos reis” perguntou-me se poderia entrar em nossa garagem para cantar. Eu disse alegremente “que sim...!”. Outros vários foliões, incluindo homens, mulheres e crianças, adentraram o quintal da frente e a cantoria iniciou-se. Violas, pandeiros, um outro instrumento que assemelhava-se a uma sanfona, mas menor, três crianças fantasiadas coloridamente, eu segurava o estandarte, como “padrinho”, e próximo de mim minha mãe, que chegara depois, “madrinha” sem saber, olhava desconfiada, sem entender quem eram aquelas pessoas estranhas que eu deixara entrar em casa1.
Este verídico e inusitado episódio, que tomo como um “fato histórico” de minha vida, nos permite construir uma breve, mas necessária reflexão, sobre o que os cristãos celebram no dia de hoje, 6 de janeiro: a Epifania.
Quando afirmei que sabia de imediato do que se tratava, ao ver o menino fantasiado, isso ocorreu em função de minhas leituras e pesquisas sobre os magos, que no caso do Brasil, guiar-me-ia indubitavelmente, em algum momento, para a leitura de um texto sobre o assunto – Folia de Reis. Mas veja que eu nunca havia participado de uma. O mesmo vale para minha mãe, só que no caso dela, conhecia menos ainda a festividade. Isso quer dizer que em nossos dias, nos grandes e médios centros urbanos, estas práticas de devoção aos magos estão cada vez mais reduzidas a certos espaços, ainda que tenhamos a impressão de que àquilo que costumamos chamar genericamente de Folia de Reis seja uma tradição “comum”. Se isto ocorre em relação às Folias, o quadro sobre a compreensão do sentido da Epifania é mais enuviado ainda.
Primeiro, vejamos sucintamente as origens das Folias no Brasil. Suas origens mais remotas encontram-se nos autos religiosos medievais, comuns já no século XI, especialmente os autos natalinos, nos quais a cena da Adoração dos Magos passa a ser parte integrante: os chamados Officium Stellae2. Estas práticas serviram como base para os folguedos e festividades que ocorriam em várias datas do ano, chamados de Festas dos Foliões, e que eram marcados por sátiras aos temas religiosos – com encenações e danças. Dentre estes temas satirizados estava também a Festa dos Reis Magos. Existem documentos comprovando a existência destas Folias nos cancioneiros ibéricos dos séculos XVI e XVII. Um dos registros mais antigos conhecidos está na poesia de Gil Vicente (1465?-1536?): “(...) Yo no soy nada de prosas/ Ni salmos, ni aleluias/ Agradan-me las folias/ Y bailes; e otras cosas/ Saltaderas son las mias”3.
Além das folias, as Reisadas (ou Cantar os Reis ou Pedir os Reis) e as Janeiras também são costumes seculares em Portugal. Embora sejam práticas bastante mescladas hoje em dia, outrora fazia-se a distinção entre as reisadas e as janeiras – a primeira seria de caráter mais religioso e a segunda de caráter profano4. Contudo, não se pode deixar de lado as influências de outras festividades, como as pastorinhas portuguesas, os villancicos e mascaradas da Espanha, ou ainda os noëls na França e os Sternsingers na Alemanha6 – assim, por toda a Europa, houveram por séculos celebrações que rememoravam a jornada dos visitantes do menino Jesus. Isto nos permite afirmar então que, embora as raízes de nossa Folia estejam em parte fincadas nas tradições ibéricas, também sofreram, e ainda sofrem, a forte influência destes diversos festejos natalinos, e outros mais.
   A introdução da devoção aos magos no Brasil fez-se através do trabalho missionário jesuítico – autos religiosos, pregações, procissões e em muitas outras atividades. A título de exemplo, os nomes dos magos eram dados a lugares e pessoas, já em fins do século XVI. Uma carta de 1562, escrita pelo Pe. Leonardo do Vale, já menciona uma “festa dos Reys”7.

São documentados reisados e janeiras aqui no Brasil nos idos do século XVIII, antes mesmo de termos as Folias propriamente ditas. O chamado Manuscrito de 1818 – de autoria anônima, criado no Brasil e que traz estrofes e versos da letra de uma canção para ser entoada em festejos natalinos - recolhido e estudado pelo pesquisador e musicólogo Antônio Alexandre Bispo, parece apresentar três indícios importantes para a compreensão da formação das Folias no Brasil: 1º) alocado e estudado em Portugal, o documento é citado lá como um novo estilo de se cantar os reis; 2º) seu conteúdo é religioso e católico; e 3º) este, exterior ao documento, consiste em registros do uso do termo folia à época de sua composição, como por exemplo o fez o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire ao referir-se a uma festa na Província de Goiás em 18198.
Caracterizando-se por um cortejo de caráter devocional por excelência, e marcado por uma organização interna, que define atribuição de atividades rituais aos seus integrantes e participantes, a Folia de Reis busca reviver todo o percurso da jornada que os Três Reis Santos fizeram, desde sua longínqua terra no Oriente até sua chegada a Belém para adorar Jesus. Os grupos de foliões recebem nomes distintos nos diversas locais de sua ocorrência: Terno de Folias de Reis, Reisado, Folia de Santos Reis, Terno de Reis, e outros9. Em cidades como Sorocaba, por exemplo, adota-se o nome Companhia de Santos Reis, evitando assim o uso do termo folia, devido ao sentido de algazarra e excesso que esta palavra assume hoje em dia10.
Ocorre com maior preponderância nas regiões Sudeste e em partes da Norte, sendo que no Nordeste, Sul e Centro-Oeste sua ocorrência é menor, dando lugar a outras festividades que fazem algum tipo de referência aos Reis Magos. É no Estado de Minas Gerais que se observa o maior contingente de praticantes e adeptos – mais de 4 mil grupos11.
Estende-se comumente do período do Natal, que se inicia no fim de novembro, até 6 de janeiro, dia de Reis. Como observa Guilherme Porto em seu clássico estudo “As folias de Reis no Sul de Minas”, a época das folias pode ir de 25 de dezembro a 6 de janeiro, marcando simbolicamente os 13 dias de viagem dos magos, ou então de 25 de dezembro a 6 de janeiro, ou ainda durar três dias ou mesmo um só12.
Quanto à sua composição, é bastante variável, segundo os municípios e regiões do país. Poderíamos sintetizá-la em três grupos de indivíduos: aquele que leva a bandeira ou estandarte de Santos Reis; as personagens típicas, das quais poder-se-ia citar os palhaços; e os instrumentistas e cantores13. Além destes temos os demais foliões, que são àqueles que acompanham a folia sem uma função ritual estabelecida e os que esperam a passagem do cortejo em sua própria casa.
Ao percorrer o roteiro, trajeto ou giro da folia, ou seja, todo o caminho pelo qual a folia passa – que é comumente planejado de antemão e inclui um local de saída, os “pousos” de parada, que são as casas a serem visitadas, e um local de chegada, no qual a Festa de Santos Reis ocorrerá em 6 de janeiro -  os foliões buscam celebrar o nascimento de Jesus ao percorrer simbolicamente os passos dos magos peregrinos. Conforme observa Neide R. Gomes, vice presidente da Comissão Paulista de Folclore, professora e musicóloga, esta celebração do natalício de Jesus menino é o elemento comum que une toda a diversidade das folias no Brasil14.
Se valendo de instrumentos tais como viola, sanfona, caixa, adufe ou pandeiro, e até mesmo violinos, bandolim, violão, cavaquinho reco-reco e clarineta15, os cantores e instrumentistas têm um verdadeiro cancioneiro registrado em suas memórias. Tem música para partida, para chegada, para abençoar as casas ao longo do trajeto e para outras várias possíveis situações. “É noite, lá fora tem gente/ ô menino, vá ver quem é./ É os treis Reis de Oriente/ na barquinha de Noé”, é um exemplo destes ricos versos usados nestas Cantorias de Reis16.
A bandeira ou estandarte carregado é o objeto ritual mais sagrado nas folias. Feita de pano brilhante e afixado numa haste vertical, a ele se afixam fitas multicores, fotos de santos ou pessoas e até cédulas de dinheiro. É carregado pelo bandeireiro e entregue temporariamente aos donos da casas em que as folias chegam.



Personagem interessante nas folias é a do palhaço. Também chamado de bastião, alferes, mascarados, Mateus, morongo, marengo, pastorinhos, malungos, marungo17, a atuação destes alegres e dançantes integrantes evoca os soldados que teriam perseguido Jesus e os próprios magos. Contudo, como observa Carlos R. Brandão, sua atuação opõe-se a de todos os outros. Em certos grupos, como é o caso dos grupos da cidade de Mossâmedes, em Goiás, o palhaço faz provocações e piadas com os foliões. Mas, em ocasiões especiais, ou no último dia do trajeto, ele é convidado a retirar sua máscara, prostrar-se diante do presépio e pedir perdão18. Trata-se de uma conversão simbólica. Nas “folias paulistas e mineiras, os palhaços vão adiante, enquanto nas fluminenses ficam na retaguarda, proibidos de ultrapassar a bandeira”19. Interessante estudo sobre o tema é a tese de doutorado de Daniel Bitter intitulada “A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de reis”, de 2008, e publicada em 2010 pela 7 Letras, que avalia o lugar dos objetos rituais nas folias de reis como mediadores entre o social e o simbólico,  como materializadores de vínculos fundamentais no contexto das folias20. Dentre estes objetos encontra-se a máscara do palhaço folião.
Uma última, mas importantíssima questão que gostaria de tratar aqui diz respeito à Epifania. Ainda que o Dia de Reis ou Santos Reis seja celebrado entre nós no dia 6 de janeiro, o nome mais apropriado para a solenidade que a liturgia cristã celebra nesta data é Epifania. Termo de origem grega, significa “aparição, manifestação”, e refere-se a uma aparição de natureza sobrenatural e benévola. É a primeira manifestação da divindade de Jesus aos povos da terra, logo após seu nascimento, reconhecida através da visita dos magos que vêm lhe trazer valiosas e simbólicas oferendas. É vista pelos pensadores cristãos, desde os primórdios do cristianismo, como sinal da ação inclusiva da mensagem salvífica de que Jesus era portador. Aos magos, sendo gentios (não judeus), foi revelada através de um sinal astronômico a iminência da chegada do messias, do cristo, “o ungido”.
A religiosidade ou piedade popular deu-lhe o nome de Folia de Reis. “É das festas mais antigas (séc. IV), celebrada tanto no Oriente como no Ocidente, embora o objecto principal desta festa, nas Igrejas do Oriente, seja o *Baptismo do Se­nhor que, entre nós, se celebra como so­le­ni­dade normalmente no domingo que encerra o ciclo do Na­tal (...)”21.
O biblista e exegeta Antônio M. Galvão faz críticas aos estudiosos por comumente tratarem do assunto de modo simplista, superficial e descuidado. Os reisados, lendas e cantos populares, todos focados na longa jornada dos magos parecem esquecer-se, ou deixar em segundo plano, o dia em que na tradição cristã o Senhor “se mostrou às nações”22. Assim, embora não negue a importância ou riqueza das folias, o autor atenta-nos para camadas de sentido mais profundas e significativas que repousam sobre estes folguedos natalinos. Observa ainda que entre os cristãos do Oriente esta riqueza epifânica tem sido melhor observada e celebrada.
Para além de enunciar este “descuido”, creio que é importante fazer ecoar que as soluções encontradas por muitas folias ao longo dos anos, na tentativa de clarificar as áreas de silêncio que os evangelhos nos oferecem sobre a viagem dos magos, devem ser aceitas como a capacidade criativa que é própria da religiosidade popular. Ainda que a ausência de teoria e método histórico/teológico incorra em imprecisões, interpretações questionáveis e muitas vezes superficiais, o conhecimento e experiência que emanam dos foliões não devem ser subestimados.
Além de fontes históricas em potencial, as Folias de Reis são um verdadeiro patrimônio cultural, memória viva da religiosidade cristã e manifestação de brasilidade.           
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Notas e Referências Bibliográficas:
1.  Padrinho e madrinha são termos usados para referir-se ao dono(a) da casa que recebe a visita da Folia. Cf. CAVALHEIRO, C. C. Folia de Reis em Sorocaba. Sorocaba, SP: Edição do Autor, 2007, p. 86.
2. PESSOA, J. M.; FÉLIX, M. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 132.
3. Ibidem, p. 134.
4. Ibidem, p. 135
5. Ibidem, p. 139.
6. Para maiores detalhes conf. SILVA, Affonso M. Furtado da. Reis magos: história, arte, tradições: fontes e referências. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2006, p. 36—45.
7. Cf. PESSOA; FÉLIX, p. 150-151.
8. Ibidem, p. 164-167.
9. CAVALHEIRO, p. 22.
10. Idem.
11. NOEL, F. L. Manifestação de fé em ritmo de folia. In Problemas Brasileiros, n.397, Ano XLVII, p. 2-7, jan./fev. 2010, p. 2-3. Também pode ser lido online em:
http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas_sesc/pb/artigo.cfm?Edicao_Id=361&breadcrumb=1&Artigo_ID=5559&IDCategoria=6363&reftype=1 .
12. PORTO, G. As folias de Reis no Sul de Minas. Rio de Janeiro: Funarte; Instituto Nacional do Folclore, 1982, p. 13.
13. Ibidem, p. 19.
14. “O objetivo é sempre o mesmo: comemorar o nascimento de Jesus. Em cada região se canta isso de forma diferente, além de variarem os instrumentos. Há folias até com pífanos, no nordeste. Algumas apresentam as figuras dos Reis Magos. E há também folias só de palhaços”, cf. NOEL, p. 3.
15. PORTO, p. 24-25.
16. MACCA, M.; ALMEIDA, A. V. de. Santos Reis: protetores dos viajantes. São Paulo: Ed. Planeta, 2003, p. 29. 
17. CAVALHEIRO, p. 25.
18. BRANDÃO, C. R. A folia de reis de Mossâmedes. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1977, p. 5; 32.
19. NOEL, p. 4.
20. Cf. BITTER, D. A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Dissertação de Doutorado. UFRJ, IFCS. Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cp086548.pdf .
21. FALCÃO, M. F. Enciclopédia Católica Popular (Paulinas Editora), vocábulo Epifania.                                     Disponível em: http://www.portal.ecclesia.pt/catolicopedia/artigo.asp?id_entrada=686 .
22. GALVÃO, A. M. A revelação de Jesus: na visita dos “Reis Magos” a Belém. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2002, p. 11-14. 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O Livro dos Reis Magos: arte, comentários e resenha

Os três Reis prepararam-se pois para a viagem, desconhecendo cada um, como referimos, a empresa dos demais. Saíram dos seus reinos precedidos pela estrela, que se movia a par do séquito, avançando quando eles avançavam e parando quando eles paravam. E durante a noite, brilhando não como a Lua, mas como o Sol, iluminava-lhes todo o caminho (...)”1.

Assim inicia-se o Capítulo VIII de “O Livro dos Reis Magos” (Historia Trium Regum), atribuído a João de Hildesheim (Johannes von Hildesheim, em língua germânica), um monge carmelita alemão nascido entre 1310 e 1320 em Hildesheim, e falecido em 1375 em Marineu2. Pouco sabemos sobre sua vida. Entretanto, sua reputação como teólogo, orador, filósofo, poeta e historiógrafo foi reconhecida e comentada por autores, mesmo tempos depois de sua morte3.
Tendo estudado em Avignon, França, para onde fora com o diretor de sua ordem por volta de 1342, tornou-se doutor em Teologia e professor universitário. Em 1358 foi nomeado biblicus (professor de Teologia) em Paris, devido aos serviços prestados em Bourdeaux. Retornou a Alemanha tempos depois. Converteu-se em prior na cidade de Cassel. Sob esta dignidade eclesiástica seria enviado em missão à cidade de Roma, em 1366. Quando do seu retorno, foi nomeado prior do convento de Marineau, onde viria a falecer em 1375. Seus restos mortais repousam aí, num túmulo próximo ao do fundador do seu convento, Conde Glichen4.

“O autor, monge carmelita, era um homem de vasta cultura, alimentada por muitas viagens pela Europa (...)”5, e dentre suas obras localizamos textos apologéticos, polemistas, epistolares e homiléticos. Destaca-se entre estes a sua Historia Trium Regum (História dos Três Reis)6.

Composta entre 1364 e 1375, a obra é um dos textos mais celebrados da literatura medieval a tratar sobre o tema. Ao lado da “Legenda Áurea” (c. 1280-1290), de Jacopo de Varazze, que pode ter sido uma das fontes para o texto de Hildesheim7, a HTR* era (e a ainda o é) um livro de consulta obrigatória para os estudiosos dos magos evangélicos.
Embora as fontes de sua obra não sejam integralmente conhecidas, João afirma “(...) que tirou os dados e as informações de relatos de viagens à Terra Santa, sermões, relatos orais, anotando-os em um livrinho, sem revelar as fontes (...)”8. Livros supostamente advindos do “Oriente”, bem como material de sermões, homilias, observações e relações de outros, teriam sido consultados pelo autor9. Alguns estudiosos crêem que tais fontes “orientais” sejam mera ficção ou então obras citadas em textos lidos por ele.

Tendo sido traduzido para diversos idiomas, o texto de Hildesheim já podia ser lido em inglês, por exemplo, no início do séc. XV. O “The Three Kings of Cologne”, cuja edição de 1876 (reimpressa em 1988) de C. Horstmann pode ser acessada pela internet10, comprova a grande popularidade de que este texto gozava nos séculos XIV e XV. Vale mencionar que, além de uma introdução muito útil, Horstmann publicou vários manuscritos do texto, incluindo a versão latina e a versão inglesa, ambas, que segundo ele, não se tratariam da obra original de Hildesheim, outrossim, de compilações posteriores, distintas em vários pontos, com omissões e acréscimos, a começar pelas diferenças do título e da ordem dos capítulos, por exemplo.
É importante mencionar que, apesar do vasto número de manuscritos e impressos existentes deste texto, temos basicamente duas versões: uma, com um texto mais curto e simples, no qual as citações bíblicas são apenas mencionadas, de estilo simples e claro; outra, mais extensa, detalhada, de estilo feito por acumulações, repetições e rebuscamento11. É esta segunda versão que encontramos em grande parte dos manuscritos hoje conhecidos.
Uma versão simplificada e modernizada do escrito de Hildesheim foi publicada em 1914 por Frances Jenkins Olcott, “The Three Kings of Cologne: A legend of the Middle Ages by John of Hildesheim”, divida em três partes: The Star, The Child e How They Came to Cologne12 


A História dos Três Reis foi concebida num momento de apogeu das peregrinações em direção às relíquias dos magos, então sediadas na cidade de Colônia, Alemanha. Assim, o trabalho de Hildesheim encontra-se dentro de uma série de contos e registros de viajantes, leigos e missionários, que narravam a busca pelos magos no período medieval tardio13. Obras como “O livro das maravilhas: a descrição do mundo”, de Marco Polo, “Viagens de Jean de Mandeville”, do lendário Jean de Mandeville, e outras, dos sécs. XIII e XIV, marcam esta literatura de viajantes preocupada, em parte, em descobrir aspectos da vida, ação e lugar de origem dos três magos. A obra de Mandeville, assim como a de Hildesheim, apesar de serem (...) trabalhos de fantasia, mais do que de ciência, tinham algo novo sobre eles, de qualquer maneira (...)14.

Outra questão que desponta é a do “mago negro”. Apesar de textos antigos já fazerem referência à possibilidade de que um dos magos fosse africano, como o “Excerptiones Patrum, Collectanea et Flores et Diversis” ou “Collectanea et Flores”, séc. VIII, ou mesmo “As viagens de Jean de Mandeville”,  é na HTR de Hildesheim que se faz a primeira referência explícita ao “Mago Negro” ou “Rei Negro” vindo da Etiópia. Estes relatos exerceram forte influencia sobre as representações dos magos na arte ocidental na segunda metade do séc. XIV e no XV, de modo que não se encontra antes de 1360 exemplos de um Rei Negro na iconografia15. Para uma discussão mais aprofundada sobre este tópico a leitura do Cap. 1 da dissertação de doutorado em filosofia de C. J. Whitaker, “Blacks, Jews, and Race-Thinking in the Three Kings of Cologne”16, é de grande valor.
A edição de “O Livro dos Reis Magos” de 2004, publicado pela Lucerna, apesar de não apresentar-nos uma boa introdução crítica ou notas de rodapé, o que em muito dificulta a compreensão e localização histórica/historiográfica dessa magnífica obra medieval, possui uma boa tradução do texto e uma seleção iconográfica com mais de 40 obras de arte – incluindo um mosaico, relevos, manuscritos, pinturas, etc. A versão do texto apresentada é a mencionada segunda versão, de texto mais simples e acessível, mas, não menos rica e cativante. Como observa a estudiosa M. Félix, obras como “A Legenda Áurea”, de J. Varazze e, em especial a HTR de Hildesheim, foram essenciais para o surgimento do “ciclo dos magos” nas artes - sua saída do Oriente, aparição da Estrela, o encontro com Herodes, a adoração a Jesus, etc, uma vez que se tratam de “(...) duas histórias detalhadas desses santos personagens e passam a inspirar igualmente os artistas”17.

Assim, pinturas como Adoração dos Magos, 1423, de Gentile da Fabriano (Fig.1); O Encontro dos Magos, cerca de 1416, belíssima iluminura do Livro de Horas do duque de Berry, feita pelos irmãos Limburg (Fig.2); e a Adoração dos Magos, miniatura do séc. XIV, do Manuscrito Apocalispe, do Metropolitan Museum de Nova Iorque (Fig.3), estão ricamente impressas no livro.
Recentemente, o Manuscrito Peniarth 481D − escrito nos sécs. XIII e XIV em pergaminho, que traz em sua segunda parte uma versão em alemão da HTR, escrita e iluminada na cidade de Colônia − foi disponibilizado para consulta online no site da Biblioteca Nacional de Wales18, o que leva-nos a postular a atualidade e importância do estudo da História dos Três Reis, a opus magna de João de Hildesheim, que mesmo após mais de sete séculos de existência, não deixou de cativar e enriquecer o imaginário cristão.

Ficha técnica:

Autor: João de Hildesheim
Número de páginas: 174
ISBN: 97-288-350-35
Ano de publicação: 10/2004
Número de edição: 1 ed.
Idioma: Português (Portugal)
Encadernação: Cartonada com sobrecapa


Pode ser adquirido em: Wook, Principia e FNAC.


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Notas e Referências Bibliográficas:
* HTRHistoria Trium Regum
1. Conforme publicado em HILDESHEIM, J. O Livro dos Reis Magos/ trad. Leonor Lucerna Silbertin-Blanc. São João do Estoril, Portugal: Lucerna, 2004, p. 43.
2. Sobre a data de nascimento e falecimento de Hildesheim cf. Helmut von Jan: Johannes von Hildesheim. In: Neue Deutsche Biographie (NDB). Band 10, Duncker & Humblot, Berlim 1974, p. 554. Disponível em:                                                                      
http://daten.digitale-sammlungen.de/bsb00016327/image_570 .

3. SCHAER, F. (ed.) Philosophy. John of Hildesheim's The Mirror of the Source of Life. In The ORB: Online Reference Bok for Medieval Studies. Disponível em: http://www.the-orb.net/encyclop/culture/philos/fonsintro.html .
4. Cf. HORSTMANN, C. (ed.) The Three Kings of Cologne: An Early English Translation of the “Historia Trium Regum”. Millwood, Nova Iorque: Kraus Reprint, 1988, p. xiii. Disponível em:
http://quod.lib.umich.edu/cgi/t/text/text-idx?c=cme;idno=3KCol;rgn=div1;view=text;cc=cme;node=3KCol%3A2 .
5. HILDESHEIM, op. cit., p. 5.
6. Existem diferentes títulos nos mais de 100 manuscritos e impressos conhecidos, dos quais HTR é o mais conhecido. Cf. a nota 1 de HORSTMANN, op. cit., p. ix.
7. LANDAU, B. C. The Sages and the Star-Child: An Introduction to the Revelation of the Magi, An Ancient Christian Apocryphon. Dissertação de Doutorado. HDS - The Faculty of Harvard Divinity School. Cambridge, Massachusetts, 2008, p. 142. Disponível em:
http://s3.amazonaws.com/academia.edu.documents/609300/Revelation_of_the_Magi.pdf .
8. Ver em SILVA, A. M. F. Reis magos: história, arte, tradições: fontes e referências. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2006, p. 21.
9. HORSTMANN, op. cit., p. xiv.
10. A edição de 1876 está disponível em: http://www.archive.org/details/threekingscolog00horsgoog ;                e a reimpressão de 1988 está disponível em: http://name.umdl.umich.edu/3KCol ;
11. HORSTMAN, op.cit., p. xi-xii.
12. Cf. OLCOTT, F. J. Good stories for great holidays: arranged for story-telling and reading aloud and for the children's own reading. 1 ed. Boston, Nova Iorque: Houghton Mifflin Company, The Riverside Press Cambridge, 1914, p. 355-362. Disponível em:
http://etext.lib.virginia.edu/toc/modeng/public/OlcGood.html .
13. TREXLER, R. C. The journey of the Magi: meanings in history of a Christian story. New Jersey: Princeton University Press, 1997, p. 124. Disponível em: 
http://gigapedia.com/items:links?eid=QWusNfQduv2pAN8WFWuDjvJNxitlt4Llmozf%2BjK9NVM%3D .
14. Ibidem, p. 125.
15. Cf. TANER, M. Accompanying the Magi: closeness and distance in Late Medieval Central European Adorations of the Magi. Dissertação de Mestrado. CEU - Central European University. Budapeste, 2007, p. 19-22. Disponível em: http://www.etd.ceu.hu/2007/taner_melis.pdf .
16. WHITAKER, C. J. Race and Conversion in Late Medieval England. Dissertação de Doutorado. Duke University. Durham, Carolina do Norte, 2009, p. 22-70. Disponível em:
http://dukespace.lib.duke.edu/dspace/bitstream/handle/10161/1653/D_Whitaker_Cord_a_200912.pdf?sequence=1 .

17. PESSOA, J. M.; FÉLIX, M. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 116-119.
18. O manuscrito pode ser consultado online em: http://www.llgc.org.uk/index.php?id=4432 .



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

As Viagens dos Reis Magos: comentários e resenha

Em minhas pesquisas contínuas e sistemáticas sobre os Reis Magos, através dos caminhos do universo virtual de que a Internet é composta, deparei-me certa vez, em 2009, com o endereço da ABEU (Associação Brasileira das Editoras Universitárias)1 e com o livro “As Viagens dos Reis Magos”. Em função de certos impedimentos, só consegui adquiri-lo em julho de 2010.
Uma bela obra. Encadernada com uma negra capa dura, que traz em sua fronte uma cena da viagem dos magos guiados por um anjo, de uma imagem de um vitral medieval (data e local não identificados), o texto é fruto da co-autoria do antropólogo e teólogo Jadir de Morais Pessoa, autor de obras como Saberes em festa: gestos de ensinar e aprender na cultura popular, UCG, 2009; Meu senhor dono da casa: os 50 anos da folia de reis das Lages, Gráfica O Popular, 1993; e A igreja da denúncia e o silêncio do fiel, Editora Alínea, 1999, e da estudiosa francesa Madeleine Félix, formada em letras clássicas e autoridade mundial no estudo dos Reis Magos há várias décadas, autora do livro Le Livre des Rois Mages, Desclée de Brouwer, 2000.
Embora não tenham pretendido esgotar o assunto, os dois compuseram um texto bem completo, denso, fresco e muito rico, não somente do ponto de vista historiográfico, uma vez que tornam conhecidos do leitor uma série de documentos em potencial e pesquisadores do assunto, mas também teológico e artístico, visto que discutem as intenções da narrativa da Natividade em Mateus (Visita dos Magos) e Lucas (Adoração dos Pastores), e por terem exposto várias obras de arte (a saber, o Sarcófago da Natividade do séc. IV, as estátuas dos magos no Portal de São Lourenço, sécs. XV-XVI, na Catedral de Strasburgo, região da Alsácia, França, e outros)2.  
Como observa Jadir M. Pessoa na introdução, a pretensão do livro “(...) não é repor integralmente a investigação sobre essas grandes questões que há dois milênios inquietam devotos, religiosos e artistas, mas tomar essas três figuras, históricas ou lendárias, como três pessoas que se puseram a caminho”3.
Assim, os autores compreendem que estas viagens dos magos evangélicos poderiam ser estruturadas em sete momentos principais (não esperem uma explicação cabalística ou teológica para este número particular dos capítulos pois ela não existe, segundo afirma o próprio Jadir na introdução), e é em função disso que dividem os capítulos do texto:


“Os Três Reis E’vêm de Longe”: introdução a uma obra feita a inúmeras mãos (autoria de J.M. Pessoa)
1. A caminho de Belém (autoria de J.M. Pessoa)
2. De Constantinopla a Milão (autoria M. Félix) 
3. De Milão a Colônia (autoria M. Félix) 
4. De Colônia para a Europa ocidental medieval (autoria M. Félix) 
5. Na bagagem da catequese jesuítica (autoria de J.M. Pessoa)
6. Trilhando a diversidade cultural brasileira (autoria de J.M. Pessoa)
7. Os Três Reis de casa em casa (autoria de J.M. Pessoa)
Despedida da bandeira (autoria de J.M. Pessoa)
Referências
Sobre os autores .


Os autores “(...) constroem um belíssimo texto que nos faz aprender muito de religiosidade e de estética, em particular de epifania enquanto ‘aparição de Deus entre os homens’(...)”4, mas também apresentam-nos como as tradições ibéricas chegaram ao Brasil dando origem entre nós às Folias de Reis, registrando várias das belas letras dos cantos usados nos “giros” das Folias pelo Brasil afora.     


Ficha técnica:


Autor(es): Jadir de Morais Pessoa e Madeleine Félix
Categoria: Religião
Número de páginas: 256
Ano de publicação: 2007
Número de edição: 1 ed.
ISBN: 85-7103-370-6
Idioma: Português

Pode ser adquirido em: Editora Kelps

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Notas e Referências Bibliográficas:
1. Na época o endereço era http://www.abeu.org.br/detalhe_livro.php?id_livro=6183&id_editora=19, recentemente, ele foi alterado para http://www.abeu.org.br/farol/abeu/catalogo-unificado/item/puc-goias/as-viagens-dos-reis-magos/4199/ .
2.  As mencionadas obras de arte encontram-se, respectivamente, nas páginas 19 e 95 do livro.
3. PESSOA, Jadir de Morais; FÉLIX, Madeleine. As Viagens dos Reis Magos. Goiânia: Editora da UCG, 2007, p. 9.
4. Conferir a resenha de GUERRA, G.A.D. PESSOA, Jadir de Morais; FÉLIX, Madeleine. As viagens dos Reis Magos. Goiânia: Ed. da UCG, 2007. In Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 17, n. 11/12, p. 1127-1129, nov./dez. 2007. Disponível em:
http://seer.ucg.br/index.php/fragmentos/article/download/513/413 .